quinta-feira, 27 de maio de 2010

VEJA, no imperativo

Usar verbos no imperativo é um problema... para quem sofreu com os ditames de uma ditadura política recém extinta como nós aqui no Brasil - e porque não dizer como nós latinoamericanos - os verbos no imperativo não soam nada bem. Pior ainda se formos do grupo das pessoas com mais vulnerabilidades, que ainda sofrem com as opressões das exclusões. Pois é, daí, uma revista como a Veja, que chega semanalmente às bancas, além de aportar gritando a sua importância vital para a manutenção da informação dos brasileiros e brasileiras, nos ordena que vejamos aquilo que eles julgam ser informação. Eu nem vou me alongar muito nessa conversa, porque ela vai dar (espero) pano prá manga, mas sugiro algumas leituras para discutirmos na nossa próxima reunião que será na EACH no dia 15/6: a primeira é da matéria publicada pela Veja http://veja.abril.com.br/200808/p_076.shtml e na sequência, dois textos sobre o assunto que estão nos blogs http://josekuller.wordpress.com/2008/09/14/paulo-freire-veja-pisa-na-bola-de-novo/
e no do Ghiraldelli que é o http://ghiraldelli.multiply.com/journal/item/149.

Bom, se é prá ver o conjunto de equívocos educacionais que se esparramam pelas páginas da Veja, mais uma reportagem que vale ler é a que trata do construtivismo, http://veja.abril.com.br/120510/salto-no-escuro-p-118.shtml, para a qual o educador e pesquisador do IP-USP Lino de Macedo escreveu uma belíssima carta-resposta que a revista preferiu não publicar, mas que postamos aqui nos comentários... leitura obrigatória para nossa discussão... referenciais decisivos para a formação da nossa consciência crítica. Beijos e até já

5 comentários:

  1. Ao Senhor Diretor de Redação
    VEJA
    Caixa Postal 11079
    CEP 05422-970
    Fax: (11) 3037-5638
    São Paulo, SP

    Prezado Senhor

    Como antigo assinante desta revista e estudioso do Construtivismo, segundo Piaget, venho lamentar a publicação, em 12 de maio, da matéria “Salto no escuro”, escrita pelo Senhor Marcelo Bortoloti. Três semanas atrás, esta mesma revista, já publicara matéria contra o Construtivismo, escrita pelo Senhor Cláudio Moura Castro.

    O texto do Senhor Marcelo Bortoloti é superficial, tendencioso e mal orientado. É isto que a Veja entende por jornalismo científico? Como posso continuar assinando esta revista e sustentar minha confiança em suas matérias, sobretudo naquelas em que me sinto ignorante, se – a respeito do que venho estudando desde 1968 -, o que observo é algo totalmente sem respeito?

    Indico abaixo os pontos de minha divergência como Senhor Botoloti:

    1. Não há dogmas no construtivismo;

    2. O construtivismo caracteriza-se pela visão de enfrentamento (via realização ou compreensão) de problemas que requerem conclusão; se errada, o desafio é aprender com os erros:

    3. Culpar os professores que se dizem construtivistas e não compreendem o que significa, para daí concluir que o construtivismo é responsável pelo fracasso da educação brasileira é simplificador e torpe, próprio de quem escreve sobre aquilo que não entende e, pior que isto, escreve com a motivação de confundir e “desconstruir”;

    4. O quadro “A desconstrução do construtivismo”, em que este autor compara “pedagogia tradicional” X “construtivismo”, é de uma banalidade e falta de informação que causa dó e desrespeito em alguém minimamente informado sobre o assunto.

    5. Meu pressuposto, pautado no excelente trabalho da Editora Abril, com a Revista Nova Escola e outros projetos educacionais, era que ela valorizava e somava forças com esta imensa tarefa de defender uma escola para todos, apesar das dificuldades deste projeto. Com a publicação deste artigo e do anterior percebo que a Veja é contra esta idéia, sendo favorável ao “melhor da escola tradicional”, com sua visão determinista, favorável à seleção dos mais aptos, o que exclui a maioria de nossa população de crianças e jovens. Que pena!

    6. Culpabilizar, enfim, professores e gestores por suas dificuldades em aplicar idéias construtivistas, no Brasil, é injusto, superficial e tendencioso, pois não considera a complexidade de se aplicar princípios teóricos e epistemológicos à prática pedagógica; ignora, também, o muito que se tem feito e conseguido, apesar de tudo. Além disto, minimiza, vulgariza e desengana todos aqueles que, apesar da complexidade desta imensa tarefa, não desistem e aceitam o desafio de uma escola para todas as crianças e jovens.
    Concluo informando que vou cancelar minha assinatura desta revista, porque perdi o respeito e a confiança que tinha por ela.
    Atenciosamente
    Lino de Macedo
    Professor Titular do Instituto de Psicologia, USP.

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  2. Quando eu estava escrevendo o post me lembrei de uma ótima referência que eu li e que é obrigatória para quem quer entender o papel da mídia impressa nas nossas vidas: é o trabalho da professora e pesquisadora da PUC Dra.Maria Celeste Mira e chama-se "O leitor e a banca de revistas: a segmentação da cultura no século XX". A sinopse já dá água na boca:

    "Como quem quer apensas contar histórias, a autora deste livro leva a refletir sobre um dos temas mais interessantes do mercado atual de consumo e de cultura: a segmentação. Quem lê tanta revista? Para responder a essa pergunta, ela parte de O Cruzeiro, a revista da família brasileira, até chegar, no final do século XX, à proclamada revista personalizada. Usando as categorias de gênero, geração e classe, analisa os modelos de revista mais importantes no Brasil e no mundo. Analisa também a relação das publicações com grupos de leitores/consumidores e os movimentos sociais e culturais que os constituem, simultaneamente, como segmentos de mercado e alteridades. Trata-se de um estudo único nas Ciências Sociais e que também contribui para as áreas de Comunicação, Marketing e os interessados na dinâmica da cultura moderna".

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  3. Meus caros, a iniciativa da Marília vem no sentido de nos fazer considerar a necessidade de refletir sobre essa matérias tendenciosas publicadas em veículos de grande circulação. Resta-nos saber se um dia vamos "dar a cara para bater" e responder quando avaliarmos como infundado, ou ofensivo, ou inapropriado um posicionamento publicado... também fica um outro ponto a ser analisado, se não houver manifestações no sentido de mostrar uma outra perspecitva, como ficam os milhares de leitores que não tem conhecimento mínimo sobre os temas polêmicos... engolem tudo como verdade??
    O que acham???
    bjos miranda

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  4. Ao ler as postagens, logo lembrei-me do livreto que li entitulado os 40 olhares sobre os 40 anos da pedagogia do oprimido que revela o quanto atual é o assunto mesmo depois de anos de existência, e a necessidade permanente de repensar e refazer práticas politicas pedagógicas voltadas para a formação humana. O fato é, como o contexto social se transforma a cada momento e como enxergamos as formas de opressão. A educação e nós professores temos uma batalha árdua pela frente que é desnudar essas formas e estimular o pensamento critico e reflexivo.
    Hoje talvez, vivemos uma era "opressora" tão ou mais perigosa que nos anos da ditadura, pois lá tinhamos claras e explicitas as formas de opressão, visto que hoje elas estão mascaradas atrás de discursos que tentam a qualquer custo parecer revolucionários.
    Ter a pretensão de desqualificar Paulo Freire é uma afronta ao patrimônio cultural brasileiro.
    E ainda, falar de construtivismo sem o menor cuidado, reflexão histórica e respeito com a docência é uma forma de manipulação um tanto mediocre, não acham????

    bjs
    Ale

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  5. que bela escrita, hein? articulada, reflexiva... adorei alê, parabéns!

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