quarta-feira, 2 de junho de 2010

Dedicar-se à velhice enquanto jovem

Recentemente, enquanto aguardava ansiosamente para o início de mais uma aula do Projeto Sênior, uma senhora participante do projeto me perguntou: “por que você trabalha com os velhos se eles não têm nada a te acrescentar?” e complementou: “eu trabalhei muito tempo com os jovens da antiga FEBEM, eram marginais, mas eram JOVENS”. Por um instante, o silêncio subitamente frio zumbiu ao meu redor. Como nunca havia refletido sobre o meu real interesse em ser aprimoranda do Projeto Sênior? Em tom descontraído respondi: “trabalhar com vocês aqui na universidade me possibilita aprender mais sobre o envelhecimento”. Apesar do seu contentamento com minha simples resposta, permaneci descontente por não ter uma clara compreensão do meu papel nesse projeto. Havia algo a mais, faltava alguma coisa e, após muitas insatisfações e reflexões, sabia exatamente o que era. Ignorando o lado profissional interessado único e exclusivamente em adquirir mais conhecimentos para enriquecer um mero currículo, notei o quanto é satisfatório, prazeroso e gratificante participar de um modelo pedagógico bem delineado capaz de promover mudanças comportamentais de forma consciente e responsável através das atividades e reflexões por nós desenvolvidas, contribuindo, assim, para um envelhecimento saudável e autônomo. Enquanto muitos programas de educação física enaltecem de forma exacerbada a prática de atividade física como única promotora de saúde, num contexto simplesmente biológico, o Sênior nos possibilita resgatar as demais dimensões humanas em nossas práticas profissionais e pessoais. “Por que você trabalha com os velhos...?”. Com essa pergunta não tive receio de repensar sobre o meu papel no projeto, compartilhando, assim, da idéia de Freire: “todo ato de educar é também um ato de educar-se”. E pode ter certeza, vocês têm muito a nos acrescentar!

Adriana Lucio

4 comentários:

  1. acho que trabalhar com eles nos obriga a pensarmos sobre o que é a vida e qual o papel da educação física na vida das pessoas. E vc retratou isso muito bem!

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  2. Felicidade, esperança, amor tudo isso sinto ao ler seu post Adri...porque percebo nas suas palavras que o Sênior passou a ser para vc muito mais que uma experiência na área, e sim uma experiência de vida, e a educação é a vida vista por um olhar mais humano, de relações e aprendizagens que nos enriquecem na medida que deixamos de ser detentores do saber e passamos a compartilhar...
    Ale

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  3. Adri, achei seu relato tão interessante e verdadeiro que ontem eu levei e li para os alunos da disciplina de autocuidado do mestrado em ciências do envelhecimento... era o dia de apresentar o sênior como uma síntese de tudo o que lemos e discutimos e ter o seu texto naquele momento foi sensacional, porque mostrou um contraponto aos significados da participação para os idosos... afinal quem nos ouve falar sobre o que é o projeto e ve as fotos com as expressões dos idosos, nem imagina o que isso tudo promove em nós, os educadores.
    Suas palavras também fizeram cada um refletir sobre as suas escolhas... valeu, garota!
    bjo, miranda

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  4. Sensacional o texto escrito Adriana, parabéns pela coragem e resignação que você mostra a cada dia, sempre percebi e senti em você uma pessoa doce educada e principalmente humana capaz de se transforma através dos questionamentos terceiros, muito obrigada por compartilhar sua experiência, de maneira critica e reflexiva sendo uma verdadeira Educadora.
    Bruna

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